Coturnos de militares em formação

Militar acidentado em serviço: reforma, remuneração e direitos

Em resumo

  • O militar das Forças Armadas julgado definitivamente incapaz para o serviço ativo em razão de acidente em serviço tem direito à reforma.
  • Se a incapacidade for total e permanente para qualquer trabalho, a remuneração é calculada com base no soldo do grau hierárquico imediatamente superior.
  • A relação entre o acidente ou a doença e o serviço militar, e o parecer da junta de inspeção de saúde, são decisivos.
  • Militares temporários e militares estaduais seguem regras próprias, que precisam ser analisadas caso a caso.

Acidentes durante a atividade militar e doenças relacionadas ao serviço podem levar à incapacidade para continuar na carreira. Nesses casos, o Estatuto dos Militares (Lei 6.880/1980) prevê a reforma, que é a passagem do militar para a inatividade remunerada. Entender as regras é essencial para evitar um licenciamento indevido.

Quando cabe a reforma por incapacidade

A reforma ex officio ocorre quando o militar é julgado definitivamente incapaz para o serviço ativo. O art. 108 do Estatuto lista as causas da incapacidade, entre elas:

  • Ferimentos recebidos ou doenças contraídas em campanha ou em operações de manutenção da ordem pública.
  • Acidente em serviço.
  • Doença, moléstia ou enfermidade adquirida, com relação de causa e efeito com as condições do serviço.
  • Doenças graves listadas na lei, como neoplasia maligna, cardiopatia grave e alienação mental, entre outras.
  • Acidente ou doença sem relação de causa e efeito com o serviço.

A remuneração na reforma

Nas hipóteses de acidente em serviço, doença relacionada ao serviço ou doenças graves listadas, se o militar for considerado inválido, isto é, impossibilitado total e permanentemente para qualquer trabalho, a remuneração é calculada com base no soldo do grau hierárquico imediatamente superior ao que possuía (art. 110). Quando a incapacidade decorre de causa sem relação com o serviço, a lei prevê regras diferentes, que podem levar a proventos proporcionais ao tempo de serviço.

A junta de inspeção de saúde e o nexo causal

A incapacidade é avaliada pela junta de inspeção de saúde. Para os casos de acidente em serviço, é fundamental que o fato tenha sido registrado, normalmente por meio de atestado de origem ou inquérito sanitário de origem, e que fique demonstrada a relação com o serviço. Laudos médicos particulares, exames e testemunhas ajudam a comprovar o quadro. Discordando do parecer, o militar pode recorrer administrativamente e, se necessário, discutir a questão na Justiça, com perícia judicial.

Passo a passo

  1. Registro do acidente. Comunique imediatamente o fato e acompanhe a lavratura do atestado de origem ou a abertura do inquérito sanitário de origem.
  2. Tratamento e documentação. Guarde prontuários, exames, laudos e receitas desde o primeiro atendimento.
  3. Inspeções de saúde. Compareça às inspeções e solicite cópia das atas e pareceres.
  4. Análise do parecer. Verifique se a junta reconheceu a incapacidade, sua extensão e a relação com o serviço.
  5. Recurso administrativo. Se o parecer for desfavorável, apresente recurso com laudos e provas.
  6. Medida judicial. Persistindo a negativa ou ocorrendo licenciamento indevido, avalie ação judicial para reintegração, reforma e diferenças de remuneração.

Militares temporários

A Lei 13.954/2019 alterou o Estatuto e tornou mais restritivas as regras para militares temporários. Em geral, a reforma do temporário depende da comprovação de invalidez e da relação da incapacidade com o serviço, conforme a hipótese. Situações de licenciamento de temporário acidentado ou doente merecem análise cuidadosa, porque o licenciamento pode ser indevido quando o militar ainda precisa de tratamento.

Policiais e bombeiros militares

Os militares dos estados, como policiais e bombeiros militares, seguem leis estaduais próprias, que podem ter regras diferentes sobre reforma e remuneração. Os princípios são semelhantes, mas a análise deve partir da legislação do estado.

Prazos

Em regra, as ações contra a União, os estados e os municípios devem ser propostas em até 5 anos (Decreto 20.910/1932). Em casos de reforma e licenciamento, há discussões sobre o termo inicial desse prazo, por isso a orientação é não deixar para depois.

Perguntas frequentes

O militar acidentado pode ser licenciado durante o tratamento?

A jurisprudência tem reconhecido, em muitos casos, o direito do militar temporário acidentado ou doente de permanecer agregado para tratamento até a recuperação ou a definição da incapacidade.

A reforma por acidente em serviço exige tempo mínimo de serviço?

Nas hipóteses de acidente em serviço, o militar de carreira julgado definitivamente incapaz é reformado com qualquer tempo de serviço.

Quem foi licenciado anos atrás ainda pode discutir a reforma?

Depende do caso e do prazo prescricional. É importante reunir a documentação da época, como atas de inspeção e o ato de licenciamento, para uma avaliação.

Conheça a atuação do escritório em direito militar.

Base legal: Lei 6.880/1980 (Estatuto dos Militares), arts. 106 a 111, com as alterações da Lei 13.954/2019; Decreto 20.910/1932. Militares estaduais: legislação de cada estado. Texto atualizado em outubro de 2026, de caráter informativo, que não substitui a análise do caso concreto.

Dr. Marcelo Martins Ferreira

Sobre o autor

Dr. Marcelo Martins Ferreira

Sócio-fundador da Martins Ferreira Advogados Associados. Especialista em Direito Empresarial e Criminal, professor da pós-graduação em Crime Eletrônico do IPEC e Diretor Jurídico da Câmara de Comércio Brasil–Rússia. OAB/SP 187.842.

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